MOIKANA

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

MODA AFRICANA E SUAS CURIOSIDADES

África  e  a moda

Quando se pensa em África relacionada à moda, vêm logo à mente as estampas étnicas, que transformam em design as características visuais mais fortes de todos e quaisquer animais da região, as pinturas corporais em desenhos geométricos e, ainda, as tramas das cestarias e outros objetos usados pelas tribos do local.

Mas nada disso é usado por lá. Os africanos têm seu próprio gosto e sua opinião, formada por centenas de anos de tradição. E é justamente no espaço da tradição que entram os tecidos africanos, os famosos tecidos estampados de cores vivas, fortes, com desenhos que são mais que adornos, têm um sentido, uma explicação no seu design e cores. Os tecidos africanos são a maior expressão usada por este povo para se autodefinirem.

Para nós, ocidentais, eles permitem uma maior compreensão das complexas regras sociais, econômicas, religiosas e sociais que se espalham pela África.

A escolha de cores, pigmentos e tipos de fios utilizados ao fazer os tecidos, os símbolos usados e sua composição figurativa estão diretamente ligados a provérbios importantes para essa cultura ainda oral, assim como lembram eventos passados que devem ficar encarnados na mente de um grupo.

E a moda, como fica? E isso é que é interessante: não há.

Fora das grandes cidades africanas, onde o contato com o Ocidente se intensificou, inclusive na adoção das variações e tendências de moda, o resto da África ainda vive sob suas regras ancestrais. Se a moda é uma mudança programada que permite ao indivíduo ocidental se incorporar e manter em um grupo de pertencimento, o caso no continente africano é justamente o contrário.

O divulgado sepultamento de Nelson Mandela ocorrido no fim de 2013 nos permitiu o vislumbre das inúmeras variações têxteis do continente. O próprio Mandela, alguns anos antes falando do lugar onde tinha nascido, registra: “era um lugar distante, um pequeno distrito afastado do mundo dos grandes eventos, onde a vida corria da mesma forma como há centenas de anos”. E aqui está a compreensão de como o vestuário é visto na África e o porquê do complexo sistema ocidental ainda ter encontrado guarida neste imenso continente.

O fabricante têxtil Visclo, de origem holandesa, há anos explora e lidera o setor do comércio têxtil em vários dos países africanos. Sua primeira descoberta foi que a maioria de sua população não dava importância às mudanças da moda ocidental, eminentemente uma moda de massa. Para eles, a importância está no caráter individual que cada peça possa oferecer. Se a venda de roupas prontas é pequena e restrita, a dos gloriosos tecidos, entretanto, vai de vento em popa, distribuídos pelo varejo para os mercadores que os levam aos lugarejos mais isolados do território e os vendem nas tradicionais feiras livres.

Nessa fase, os africanos contratam uma mão de obra barata, ou fazem eles próprios, os modelos que lhes agradam, modelos específicos, peças únicas que transmitem ao resto do seu grupo de convivência não apenas seu status na localidade, mas os aspectos individuais de seu gosto e de sua pessoa.

Resumindo: Se no Ocidente vestimos o que nos deixará mais próximos aos grupos a que pertencemos ou almejamos pertencer, procurando em pequenos detalhes exprimir nossas características individuais, os africanos fazem ao contrário. Nascidos e criados em pequenas comunidades, eles já pertencem a tribos. Seu interesse é se diferenciar e autoafirmar no meio daquelas pessoas que os viram crescer. Isso é facilitado ao exibirem no corpo um tecido que pode ser até comum ou conhecido, mas em um modelo feito com atenção e carinho pelo próprio africano ou por uma costureira/alfaiate da sua escolha, que segue as suas determinações e que será inevitavelmente uma peça única.

Interessante, né? Nesse mundo dominado pela comunicação e pelas máquinas, que as novidades chegam em instantes em nossas mãos, muitos ainda se atém a normas culturais centenárias. E não estão muito interessados no novo.

site:   O Tempo
www.otempo.com.br › mariana-rodrigues
Autora: Mariana  de Farias Tavares Rodrigues, pesquisadora de história da moda, e docente no Centro Universitário UNA